O que um conflito em Taiwan teria a ver com o Brasil
Durante a pandemia, montadoras brasileiras pararam por falta de chips de Taiwan. Um conflito real seria dezenas de vezes mais grave — e afetaria desde o celular até o agronegócio.
Taiwan fica a mais de 17 mil quilômetros do Brasil. Mas o que acontecer lá afeta diretamente a vida de qualquer brasileiro.
Não é exagero. Durante a pandemia, quando as fábricas de chips simplesmente desaceleraram, montadoras brasileiras suspenderam linhas de produção por falta de semicondutores. Carros ficaram meses sem ser entregues. Preços subiram.
Isso foi com a TSMC funcionando. Um conflito real seria outra escala.
O Brasil depende de chips sem produzir chips
O Brasil não fabrica semicondutores avançados. Nunca conseguiu desenvolver essa indústria em escala competitiva — apesar de tentativas nas décadas de 1970 e 2000.
Em 2008, o governo criou o CEITEC, empresa pública de microeletrônica no Rio Grande do Sul, com capacidade para 20 milhões de chips por mês — de baixa complexidade. Em 2020, o governo decidiu liquidá-la. A empresa gerava R$ 7,8 milhões de receita por ano, mas custava R$ 80 milhões em despesas operacionais.
Hoje, a indústria brasileira importa wafers — as fatias de silício processadas — da Coreia do Sul e de Taiwan, e faz apenas as etapas finais de encapsulamento e teste em solo nacional.
US$ 4,25 bilhões por ano · alta de 40% desde 2020 · maior parceiro de Taiwan na América Latina (após México)
Em 2026, mais de 70% da sojá importada pela China é de origem brasileira — o agronegócio BR depende da estabilidade da relação China-Taiwan
Veículos, eletrodomésticos, smartphones, máquinas agrícolas e sistemas militares dependem de chips importados
Montadoras brasileiras suspenderam produção por falta de chips em 2021–2022 — com TSMC funcionando normalmente
O celular que você usa
O smartphone no seu bolso tem chips fabricados em Taiwan. O notebook que você usa para trabalhar também. A televisão. O roteador de wi-fi. O sistema de pagamento no caixa do mercado.
Não é metáfora. Praticamente todo dispositivo eletrônico vendido no Brasil tem semicondutores cujá cadeia de produção passa por Taiwan — direta ou indiretamente.
Um bloqueio de Taiwan não interrompe a entrega imediatamente. Interrompe a reposição de estoques. Em meses, a escassez se manifesta em preços. Em um ano, em falta de produtos.
O agronegócio também está no jogo
O agronegócio brasileiro é cada vez mais digital. Máquinas de plantio e colheita têm sistemas embarcados com chips. Sensores de solo e irrigação precisam de semicondutores. Drones de pulverização dependem de processadores.
Mas há uma segunda dimensão menos óbvia: o Brasil exporta mais de 70% da sojá que a China consome. Se um conflito em Taiwan arruinar a economia chinesa — o principal comprador do agronegócio brasileiro —, o impacto chega direto ao produtor rural brasileiro.
Taiwan é vizinha de China. E China é o maior mercado do agronegócio nacional.
O Brasil e Taiwan: uma relação comercial crescente
Brasil e Taiwan movimentaram US$ 4,25 bilhões em comércio no último ano registrado — alta de 40% em relação a 2020. O Brasil é o principal parceiro comercial de Taiwan na América Latina, depois do México.
Taiwan identificou o Brasil como parceiro estratégico para a expansão de sua indústria de semicondutores. O país tem “capital e know-how para ajudar o Brasil a construir uma indústria doméstica de chips”, segundo o Ministério de Assuntos Econômicos de Taiwan.
Até agora, essa cooperação avança lentamente. Mas a tendência é de aprofundamento — especialmente se o cenário geopolítico global continuar pressionando por diversificação de cadeias produtivas.
O que o Brasil pode fazer
No curto prazo, pouco. O Brasil não tem capacidade de substituir importações de chips avançados em qualquer prazo realista.
No médio prazo, o País discute o Plano Brasil de Semicondutores — mas o debate existe há anos sem avanços concretos. O encerramento do CEITEC em 2020 foi um retrocesso que ainda não foi compensado.
O que resta ao Brasil é acompanhar a crise, diversificar parcerias comerciais e torcer para que a teoria do escudo de silício continue funcionando — porque o País não tem plano B se ela falhar.
A Foxconn, empresa taiwanesa maior montadora de eletrônicos do mundo, já opera uma fábrica de montagem no Brasil. Desenvolvedores taiwaneses de computadores e equipamentos de tecnologia também fabricam no país — mas em etapas de baixo valor agregado, sem produção de chips avançados.
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Fontes: Brasil 247 · IPEA · JC Concursos · Brasil123 · Portal IFSC/USP · www.portalsampanews.com.br/

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