Por que o tempo do semáforo te irrita — e o que diz a lei
O Estatuto do Pedestre de SP limita a espera a 90 segundos. A CET admite que "eventualmente" chega a 2 minutos. O sistema adaptativo não considera o tempo de espera do pedestre como parâmetro. E o desrespeito ao semáforo cresce.
Há uma lei municipal em São Paulo que diz que o pedestre não deve esperar mais de 90 segundos em um semáforo.
É o Estatuto do Pedestre. E a CET admite, em nota oficial, que nem sempre cumpre esse limite.
O que diz o Estatuto do Pedestre
O Estatuto do Pedestre de São Paulo — legislação municipal — estabelece parâmetros específicos para o cálculo do tempo semafórico de travessia.
Sobre velocidade de caminhada, o Estatuto determina três parâmetros: crianças de até sete anos a 7 metros por segundo, idosos a 8 metros por segundo e demais usuários a 1 metro por segundo. Esses parâmetros devem ser usados para calcular o tempo necessário de verde para cada tipo de usuário atravessar a via.
Sobre tempo de espera: o Estatuto determina que a espera máxima do pedestre não deve ultrapassar 90 segundos.
O que a CET faz na prática
Em nota oficial, a CET explica sua metodologia. A velocidade média de caminhada usada nos cálculos é 1,2 m/s — não os parâmetros diferenciados do Estatuto.
Sobre o limite de espera, a CET afirma: “Não define um tempo máximo de espera para pedestres, mas nos horários críticos de trânsito, nos picos, a espera máxima é de 1 minuto e meio. Eventualmente, em algumas avenidas, pode chegar a dois minutos.”
Dois minutos supera o limite de 90 segundos do Estatuto do Pedestre. A CET usa o termo “eventualmente” — mas não especifica quantos cruzamentos ou com que frequência isso ocorre.
A CET afirma que “a temporização dos semáforos de pedestres na cidade de São Paulo atende aos padrões estabelecidos pelo Contran/Denatran” — normas federais. Mas o Estatuto do Pedestre é uma lei municipal específica de São Paulo que estabelece limites mais restritivos. Cumprir o padrão federal não significa necessariamente cumprir a lei municipal.
O “vermelho piscante” como tempo de travessia
Outro ponto que gera confusão: a CET conta o vermelho piscante como parte do tempo de travessia do pedestre.
Em nota, a CET exemplifica: “Em uma via de 12 metros, uma pessoa teria 4 segundos de sinal verde, 10 de vermelho piscante e 1 segundo de vermelho para cumprir sua travessia, totalizando 15 segundos.”
Na prática: o pedestre tem 4 segundos de verde para iniciar a travessia de 12 metros. Quem começa a atravessar nos últimos segundos do verde pode não conseguir terminar antes de o carro ter luz verde. Ativistas de mobilidade ativa questionam se essa contagem é adequada — especialmente para idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
O impacto no desrespeito ao semáforo
Existe correlação documentada entre ciclos longos e desrespeito ao semáforo. Especialistas em mobilidade são diretos sobre isso: quanto mais tempo o pedestre espera, maior a probabilidade de avançar o vermelho. O mesmo vale para motoristas.
A arquiteta e urbanista Rafaella Basile, coordenadora de Mobilidade e Ruas Seguras da Iniciativa Bloomberg pela Segurança Viária Global, afirma que o ideal são ciclos de 60 a 90 segundos no máximo — e que “esses parâmetros de semáforos inteligentes não levam em conta o tempo de espera dos pedestres. Eles levam em conta o fluxo veicular e os parâmetros para pedestres ficam em segundo plano”.
O aumento do desrespeito ao semáforo em São Paulo é um problema real com risco de vida — e parte da explicação pode estar nos ciclos cada vez mais longos.
Espera máxima: 90 segundos · velocidades de caminhada diferenciadas por faixa etária
Velocidade usada: 1,2 m/s · espera admitida: até 90s no pico · “eventualmente” 2 min em algumas avenidas
60 a 90 segundos máximo · acima disso, aumenta a probabilidade de desrespeito ao semáforo
Sistema otimiza fluxo veicular · pedestre não é parâmetro de otimização · espera pode aumentar em picos
📰 LEIA TAMBÉM
Fontes: Metrópoles · CET-SP (nota oficial) · Estatuto do Pedestre · Bloomberg Initiative for Global Road Safety · www.portalsampanews.com.br/

Deixe um comentário